domingo, 17 de agosto de 2014

Verdejo espanhol


A ampelografia é o ramo da botânica que trata da identificação das variedades de uvas. Isso sempre foi feito pela identificação do formato das folha da videira e da cor dos frutos, mas hoje em dia usam-se testes de DNA. O amável leitor pode achar que essa abordagem científica faria todos se acalmarem e concordarem racionalmente sobre a origem verdadeira de cada uva, mas, nesse caso, o amável leitor nunca assistiu ao Programa do  Ratinho ;-)

Verdejo é uma uva vinífera branca que se originou no norte da África e é plantada na região produtora espanhola de Rueda desde o século XI. Ela não tem absolutissimamente nada a ver com a uva Verdelho, famosa na portuguesa Ilha da Madeira. Aliás, ela também não tem nada a ver com a variedade italiana Verdello, que, por coincidência, é um dos nomes espanhóis de uma quarta uva totalmente diferente, mais conhecida como Pedro Ximénez. Para complicar as coisas, existem pela aí livros obsoletos sobre vinhos que agrupam todas essas uvas como se fossem uma só. Há pessoas que tendem a acreditar que, quanto mais antigo for o livro, mais fiel à verdade ele será. Acontece que estamos falando de Biologia. Espero que o amável leitor não recorra às orientações médicas da Idade Média para se curar de uma doença facilmente curável pelos métodos modernos.

2013 Protos Verdejo
Rueda, Espanha
100% Verdejo
€5,95 (Preço na Espanha), 13% abv.
Este vinho se abre logo no nariz, com vivacidade e toques frutados (pêssego e abacaxi). Na boca, sua acidez é média, com um final floral delicado. Este vinho já foi avaliado pelo meu amigo e confrade Jeriel (www.blogdojeriel.com.br) em 2010, mas ele escreveu sobre a safra 2008 (vide http://blogdojeriel.com.br/2010/07/protos-verdejo-rueda-2008-vale-a-pena-conhece-lo/).


Yllera Verdejo 2012
Rueda, Espanha
100% Verdejo
US$ 10 (Preço nos EUA), 12,5% abv.
Este verdejo é mais suave, com um corpo mais redondo e estilo bem mais contido. Na boca, um levíssimo toque de bergamota e um final bem leve. Tive a felicidade de ganhá-lo de um amigo em minha última visita aos EUA.

Ambos são vinhos perfeitos para dias quentes, e seu baixo preço (inclusive no Brasil, por volta de 45 ou 50 lascas) faz com que sejam ideais para reuniões informais com amigos. Basta levar à temperatura certa (10 ou 12°C) e desfrutá-los com queijos, frutas e embutidos em geral.

Salud!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Ventisquero Grey


Ventisquero Grey não pretende pegar carona no lançamento do filme Cinquenta Tons de Cinza. Seu compromisso é com vinhos de gleba única (single block) que mostram um terroir diferenciado.

A maior parte do mundo do vinho vive de vinhos de mesa, ou seja, o tipo de vinho que é apreciado há milhares de anos. Uvas de diferentes antecedentes e campos são misturadas, combinadas e fermentadas, gerando um produto final palatável. E isso é maravilhoso. Na era moderna, isso significa uniformidade de um ano para outro, de forma que que a sua garrafa de "Adega do André 2010" tenha praticamente o mesmo paladar de uma garrafa de "Adega do André 2012". A Coca-Cola não se tornaria uma gigante das bebidas se seu produto fosse passível de sofrer num determinado ano por causa do mau tempo ou de pragas e pulgões diversos, ou se o produto só estivesse pronto para beber depois de descansar por vinte anos. Esses vinhos (de mesa) são o combustível da indústria vinícola e pagam as contas das importadoras e adegas. Sem eles, não poderíamos sentar ao redor de uma mesa e debater longamente sobre nossos vinhos preferidos de regiões absconsas, vinificados com esmero em pequenos lotes.

Acho que esta linha de vinhos da Ventisquero consegue um belo equilíbrio, porque, nele, temos as vantagens da expressão de um vinhedo único e diferenciado aliadas a preços nada exorbitantes, e a distribuição é razoavelmente ampla - não é difícil encontrar esses dois tintos, além das outras cinco garrafas com a mesma etiqueta.

Ventisquero Grey Single Block Pinot Noir 2012
Vinhedo Las Terrazas, Vale do Leyda
100% Pinot Noir
R$94 (Enoteca Brasil), 13,7% abv.
O Pinot Noir chileno continua melhorando ao longo dos anos, mas eu gostaria de ver como este se desenvolverá nos próximos anos. No momento em que degustei, ele se apresentou vivo e com excelente acidez, com perfil predominante de cereja vermelha fresca. Ainda é bastante jovem, com taninos médios, mas espero que eles se suavizem daqui a uns dois anos.

Ventisquero Grey Cabernet Sauvignon 2011
Vinhedo Trinidad, Vale do Maipo
96% Cabernet Sauvignon, 4% Petit Verdot
R$99,80 (Enoteca Brasil), 14% abv.
O Cabernet Sauvignon, por sua vez, já está prontíssimo para beber, escoltado por um belo churrasco. Ele mostra ameixa preta e um toque de chocolate, com aromas sutis de tabaco e folha de tomateiro verde*. Não há dúvida de que seu estilo é o de um bordalês jovem e, com uma hora de decantação, está pronto para ser desfrutado com carnes vermelhas.

(*) Sim, caro leitor, eu já cheirei muita folha de tomateiro verde. Anos atrás eu tinha uma hortinha no jardim de casa, na qual plantava tomates verdes. Se você nunca chegou perto de um tomateiro e sair por aí dizendo que encontra esse descritor de aroma em tudo quanto é tinto que beber, não vá pôr a culpa em mim.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vinhos da Villa Maria (Nova Zelândia)


O nome do produtor é Villa Maria, portanto o vinho só pode ser da... muito bem, pequeno gafanhoto-leitor! Da NOVA ZELÂNDIA!

É isso mesmo. E a cereja do bolo é que a vinícola não tem nada a ver com a Espanha nem com a Itália. Ela foi fundada por Sir George Fistonich, filho de imigrantes croatas que cansaram da vida de carpinteiros e decidiram começar a cultivar uvas viníferas em 1961.

Quando falamos de Nova Zelândia no mundo do vinho, é quase certo que nos venham à mente apenas as variedades Sauvignon Blanc e Pinot Noir, mas a Villa Maria tem uma gama bastante ampla de castas, produzindo inclusive rosés e espumantes. 

2014 Villa Maria Private Bin Sauvignon Blanc
Marlborough (Nova Zelândia)
100% Sauvignon Blanc
12,5% abv.
US$15,00 (preço médio nos EUA)
O vinho apresenta um ataque olfativo intenso com perfil que me lembra muito o da uva Thompson branca (aquela compridinha e sem semente), secundado por notas herbáceas e limão galego. Na boca, acidez marcante e firme. Acreditem, meus caros, provei esse vinho numa lanchonete aqui de São Paulo com um sanduíche clássico: o Tuna Fish (o popular sanduíche de atum com alface e cebola roxa... minhas memórias dele remontam à adolescência). O estilo cítrico do vinho harmonizou bem, por semelhança, com este belo exemplar de Sauvignon Blanc. E, não, meus caros, a cebola roxa (crua) NÃO MATA o paladar do vinho, como soem dizer os grandes manuais de harmonização.


2013 Villa Maria Cellar Selection Sauvignon Blanc
Marlborough (Nova Zelândia)
100% Sauvignon Blanc
13% abv.
US$20,00 (preço médio nos EUA)
Os dois vinhos de que falo neste post exemplificam à perfeição como dois vinhos da mesma uva podem ser diferentes. O Cellar Selection tem um nariz muito mais discreto, com um toque de casca de laranja, e não a fortíssima toronja que se espera de um SB neozelandês. É muito mais leve e delicado, com acidez suficiente para atingir um equilíbrio adequado. Eu recomendo casá-lo à mesa com vieiras e uma saladinha verde. Nec plus ultra.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crémant d'Alsace


Ao contrário do que os manuais e gurus do vinho preconizam, não existe época errada do ano para beber um Crémant d'Alsace (trata-se de um espumante, viu?). É muito gostoso, mas tem um probleminha: no Brasil, as importadoras enfiam a faca, e não é possível encontrar por estas plagas um Crémant d'Alsace decente a menos de 100 reais. Nos EUA, gastei cerca de 20 dólares em cada garrafa. Isso explica muita coisa sobre o mercado de vinhos no Brasil. Seja como for, é o tipo de vinho que eu recomendo para casamentos, reuniões de amigos em dias frios, ou churrascos de verão. É uma clamorosa besteira achar que os espumantes precisam ser guardados para ocasiões especiais. Se você nunca teve a experiência de harmonizar um frango à passarinho com um bom espumante, meu primo, você está em dívida consigo mesmo.

Neste post, falo sobre quatro Crémants que trouxe de (não tão) recente viagem a trabalho. Eles são bem secos e apresentam boa acidez, e vi por bem escolher dois rosés e dois blancs


Dopff & Irion Rosé Brut (Sem Safra)
Alsácia (França)
100% Pinot Noir
12% abv.
Pensem no aroma de limonada com xarope de framboesa, notas amendoadas e bolhas grandes. É maravilhoso para acompanhar um sanduíche de pernil do Estadão, mas também não faz feio diante de uma bandejinha de azeitonas e frios. 

Charles Baur Rosé Brut (Sem Safra)
Alsácia (França)
100% Pinot Noir
12,5% abv.
Este vinho apresenta um perfil predominante de morango maduro. A acidez vibrante se desfaz num final bastante curto. É o tipo de vinho que acompanha bem ovos recheados e salada de batata. O contraste é bastante divertido. 

Lucien Albrecht Brut Blanc de Blancs (Sem Safra)
Alsácia (França)
80% Pinot Auxerrois, 10% Pinot Blanc, 10% Chardonnay
12% abv.
Elegante e mineral, com notas leves de maçã verde. É o clássico vinho para noites de autógrafos. Quando eu lançar meu livro (aguardem), quem comparecer será brindado com este vinho.

Gustave Lorentz Brut (Sem Safra)
Alsácia (França)
Corte próprio de Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Noir
12% abv.
Achei este vinho o mais ácido do grupo, com acidez semelhante à do limão, e um paladar secundário , mais suave, de pêra. Minha dica de harmonização: compre uma rodinha de queijo Brie, cubra de mel e nozes, e aqueça até a cobertura começar a escorrer. Abra o vinho, sirva, pegue uma baguete, e, sim, o mundo realmente pode ser bom, belo e justo.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Protea Wines (África do Sul)

Protea Wines tem uma estratégia de marca bastante curiosa. Os rótulos das garrafas não dizem  nada sobre o vinho, e uma etiqueta pequena e destacável no contra-rótulo apresenta as informações obrigatórias e o código de barras. O restante da garrafa é impresso diretamente com um design floral, cortesia do designer sul-africano Mark Eisen. Eles promovem a beleza das garrafas vazias com a campanha Save Your Bottle ("guarde sua garrafa"), que incentiva as pessoas a reaproveitar as garrafas para guardar azeite, vinagre, como castiçais ou vasos, para cortá-las e transformá-las em copos, etc.

O nome da Protea (se pronuncia prôtea) homenageia um grupo de flores sul-africanas que, por sua vez, receberam seu nome em homenagem ao deus grego metamórfico Proteu. O motivo desse nome é que a flor aparece em muitas formas diferentes, sendo que a mais conhecida é a Protea-Rainha, que, como muitas do seu gênero, precisa passar por um incêndio florestal como parte do seu ciclo vital. 

Prosseguindo com a atenção ao design comercial, chegou às minhas mãos um porta-garrafa produzido pelo designer cerâmico norte-americano Jono Pandolfi. Se você nunca usou um porta-garrafa, ele serve para evitar que as gotas de vinho que escorrem após o serviço manchem a mesa ou a toalha. Existem os de prata, há gente que usa aquele papelão aluminizado que vêm embaixo das embalagens de bolos prontos, ou, "no popular", o bom e velho papel-toalha. Eu gostei dos tons terrosos do que ganhei, e espero usá-lo durante muitos anos para os fim a que se destina. 

Papo encerrado, vamos ao serviço.


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Protea Chenin Blanc 2013
Coastal Region, África do Sul
100% Chenin Blanc
13.5% abv.

Depois de remover a etiqueta, dá para chamá-lo de Steen e ser fiel à região. É um vinho delicado para dias quentes, com um perfil aromático de casca de limão e frutas brancas (pêra). Na boca, baixa acidez e um final suave. Perfeito para pratos de frutos-do-mar pouco condimentados, como mexilhões no vapor, nos quais o sal "puxa" o paladar do vinho.


Image result for south african flagProtea Red Blend 
2012

Western Cape, África do Sul
53% Cabernet Sauvignon, 47% Merlot
14% abv.

Este vinho me evoca boas memórias de um período não tão bom que passei em terras sul-africanas e na vizinha Namíbia. Aromas exuberantes de cereja preta e café, com notas secundárias de chocolate. Na boca, frutas silvestres escuras e taninos médios, com um final bastante longo. Recomendo muito para pratos de cordeiro grelhado.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Martín Códax Albariño 2012

Os vinhos Martín Códax (se pronuncia "martim codásh") foram batizados em homenagem a um jogral galego (para quem não sabe, "jogral" é o nome que se dava aos compositores e artistas sem origem nobre). Embora todos os vinhos de Albariño que eu degustei ao longo dos anos tenham sido sempre bem agradáveis, sem surpresas "zurrápicas", fiquei realmente impressionado com este. 

O logotipo da vinícola é um alaúde, mas em vez de recorrer a uma versão fotograficamente realista, o designer enxugou o conceito até chegar a sete linhas simples, com as cinco cordas em azul claro metalizado. Eu sempre gostei de rótulos conceituais, e tenho especial predileção por uma abordagem limpa e simples - detesto quando o designer se resume a jogar no logotipo tudo o que encontra pela frente e espera que o "freguês" consiga decifrar do que se trata.

O cérebro humano é bastante capaz de preencher as lacunas dos detalhes em desenhos minimalistas, e é por isso que todos entendemos o conceito de um Homo sapiens feliz quando vemos dois pontinhos e uma linha curva :) Quanto tempo demora para você entender se alguém está de bom humor ou de mau humor através de simples sinais convencionais e do próprio uso da palavra?

Agora, chega de designices e vamos às minhas impressões deste vinho que tenho guardado na minha adega há mais ou menos um ano.

Image result for galician flagMartín Códax Albariño 2012
Rías Baixas, Galiza (Espanha)
100% Albariño
12,5% abv.

Me perguntaram o seguinte pelo chat do Facebook: "Hoje eu vou churrasquear um franguinho. Que vinho vai bem?" Sem saber do que o vivente gosta nem dos detalhes do prato, recomendei este vinho. Os Albariños espanhóis são bem baratos, fáceis de achar nas boas importadoras (e até em alguns supermercados) e agrada a muitos paladares. Esta safra apresentou um ataque aromático floral e de melão. Na boca, mostrou frutas brancas bem leves (pêra d'água, pêssego), acidez média, mas bem presente, e um final de boca ligeiramente amargo, sem incomodar. Em resumo, tudo o que eu quero e espero de um vinhozinho para dias quentes como o deste último fim de semana.

Bloggy Krueger

É isso aí, povo do vinho! Meus blogs sobre vinho morrem e ressuscitam à maneira de Freddy Krueger. Este deve ser o sétimo ou oitavo enoblog que abro, e sempre prometo em meu post inaugural que eles serão eternos e sempiternos. Mas desta vez... prometo de novo!

Tirei dois anos sabáticos para pensar no que leva uma pessoa que não tenha nenhum interesse financeiro no mercado de vinhos a publicar suas opiniões a respeito deste ou daquele vinho. Cheguei a algumas conclusões, mas a mais convincente delas se resume a uma palavra: VAIDADE! Sim, meus caros, a mais pura e intocada vaidade, uma das forças motrizes do comportamento humano.

Ora, todos sabemos que, na nossa sociedade, "entender de vinho" confere uma aura de refinamento e distinção ao vivente. Basta você dizer que tem um blog sobre vinhos para que os olhos do interlocutor se arregalem, as sobrancelhas se levantem, e ele exclame "oh, mas que chique!" (ou variações sobre a mesma exclamação). E quem não gosta de ser visto como "chique". Vaidade, meus caros. Os antigos já sacaram isso desde imemoriais tempos bíblicos. Tá la em Eclesiastes 1:2: Vanitas vanitatum et omnia vanitas (cf. a Vulgata de São Jerônimo).

Existem enoblogs sérios, enoblogs picaretas, enoblogs descompromissados, enoblogs independentes, enoblogs que mandam as verdades na cara de quem quiser (e não quiser). Tem para todos os gostos.

Este enoblog, meus caros, em sua enésima versão, é um dos que mandam e sempre a verdade "na lata", in your face. E para quem ainda não me conhece, eu REALMENTE entendo de vinho e de gastronomia. Entendo muito! Entendo pra caramba! E não digo que o vinho XYZ tem "aroma de ouriço do rio Pinheiros" nem de "Edelweiss". Descrevo os vinhos, suas circunstâncias e seus circunstantes com base na minha memória olfato-afetiva própria, e não com base em caixinhas ou rodas de aromas.

Outra coisa que aviso desde já: parei com essa história de atribuir notas e pontuações numéricas aos vinhos. Eles não merecem esse tratamento cruel e desumano. Neste blog, vocês lerão minhas impressões e os motivos pelos quais adorei ou odiei esse ou aquele vinho. Serio mesmo, gente, vocês conseguem dizer objetivamente a diferença entre um vinho de 87 (ou 87,5) e 88 pontos? Quem diz que consegue é um baita dum mentiroso. Liar, liar, pants on fire! Desculpem o chulismo, mas degustar um vinho com uma ficha de pontuação é a mesma coisa que ir a um puteiro uma "casa de festejo" e fazer o test drive na "prima" com caneta e planilha na mão. Pra tudo tem hora. É claro, se avaliações objetivas de vinhos forem o seu ganha-pão, desconsidere tudo o que eu disse.

Bem, com visão, missão e valores expostos, vamos começar, beber, escrever e exercer de maneira saudável a vaidade inerente a mim, a vocês, a nós todos, escravos da condição humana que somos. Dá mais certo.

Prosit!