segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Antes de degustar o vinho, saiba que tipo de degustador você é

Existem atos, atitudes e palavras plenas daquele fascínio que nunca sai de moda, mesmo que boa parte desses modos seja ligada à arte da degustação de vinhos. Na verdade, fico feliz que o interesse pela degustação se estenda a cada vez mais pessoas, mas fico um tiquim menos feliz com os personagens (muitas vezes monstros) que surgem assim que olfateiam a primeira taça. Seja numa degustação formal, numa simples happy hour num a importadora ou num wine bar ou na festa da "firma" (Piracicaban accent, please) com copos de plástico (ou isopor), fica claríssimo como o vinho é capaz de transformar um sujeito bacana num reles tipo figurativo (personagem, caricatura, como queira o amável leitor). Existe, no entanto, uma condição muito pior que a embriaguez, chamada "eno-paixão", condição hoje muito freqüente mercê da porcaria da Internet e dos (mais porcarias ainda) blogs de vinhos: a comunidade científica concluiu que ela pode desaparecer nos próximos vinte anos, quando a cerveja artesanal será consideradas a bebida nacional e os rótulos de vinhos serão usados em manifestações e marchas por igualdade de direitos. Agora, amável leitor, apresento-lhe uma lista dos personagens do mundo do vinho que cataloguei ao longo dos últimos onze anos, suas atitudes e alguns conselhos sobre como encará-los.


1. O técnico. Alfácio, fotógrafo de profissão, tentou certa feita fazer vinho na sua garagem: a acidez ficou tão acentuada que um famoso fabricante de pepinos em conserva quis comprar o barril inteiro, mas nosso bom Alfácio era muito orgulhoso para entender que aquilo não se tratava de vinho. Desde então, ele acredita ser um produtor melhor que os mais conceituados e afamados porque, ao contrário deles, não usou sulfitos e não consultou nenhum enólogo. Verdadeiro gênio da raça! Seja qual for o vinho que você beber na companhia dele, ele dirá que tem paladar químico. Conselho do Tio Andy: Procure um casal de velhinhos que morem pra lá da Caixa-Prego e pergunte se eles estão dispostos a hospedar um senhor que ainda acredita que coisa boa, de qualidade, só se faz em casa. Se estiverem dispostos, mandem o bom Alfácio para lá com passagem só de ida.


"Irmãos, aquelorum qui quiserenobis cafungatis..."
2. O barulhento. Couvélio, operário do vinho, acredita que sabe muito e que todos devem saber que ele sabe muito. Durante um evento de degustação lotado, todos percebem sua presença; quem não consegue vê-lo certamente o ouvirá. Ele olfateia a taça com tanta força que o deslocamento de ar chega a ser visível. No entanto, essa "narigada das galáxias" não lhe proporcionará grandes emoções porque o floral que ele sentirá ao nariz não será do vinho que ele tem em sua taça, mas do perfume da mocinha sentada duas cadeiras adiante. Conselho do Tio Andy: Não existe solução politicamente correta. Vire-se para o bom Couvélio com olhar ameaçador, mas sorrindo, e convide-o a pegar sua tacinha e sair de mansinho com uma frase do tipo "se para avaliar o aroma do vinho você faz esse puteiro salseiro todo, espero em Deus que você não espirre". Ele vai entender.


3. O "centrifugador". Que é necessário girar a taça para liberar os aromas do vinho, isso se ensina até na primeira aula da "Escolinha do Professor Raimundo", a.k.a. AB$. Mas sempre há o nosso amigo Broccolino, que gira a taça com vigor e velocidade ímpares, na certeza de que ganhará pontos na escala eno-nerdística. Eis que, então, ficamos diante de movimentos quase idênticos aos da centrífuga da máquina de lavar roupas programada para lavar tecidos sintéticos, provocando algo parecido com um tsunami na taça (e, às vezes, fora dela). Esse camarada, em geral, é do tipo que só escolhe um rótulo se este estiver acompanhado de um brasão de armas de tempos d'antanho. Conselho do Tio Andy: Em alguns casos, é melhor esquecer as boas maneiras. Se Broccolino se aproximar de você, faça-o beber direto da garrafa. Aí vamos ver o que e como ele vai girar. Talvez com um bambolê?

4. O verborrágico. Jamal el-Qiab fala, fala sem parar. Não dá para saber se o interesse dele é mesmo o vinho, porque ele religiosamente começa com uma questão relacionada ao terroir e termina contando causos da sua vida particular. O constrangimento dos circunstantes será astronômico, mas o verborrágico é umbigocêntrico demais para se dar conta disso. Não falha uma vez: sempre que alguém dá uma opinião, ele se mete e fala cinco vezes mais. Quando participa de uma apresentação de uma importadora ou vinícola, então, é pule de dez que ele vai falar mais que o palestrante. Conselho do Tio Andy: Em alguns casos, não dá para esperar muito. Mande-o calar a puta da boca.


5. O cabaço novato. Certa feita, ofereceram a Abobrildo uma taça de Krug e, daquele momento em diante, nada mais foi como antes. Ele começou a freqüentar todas as degustações que apareciam pela frente, sentava-se à mesa da frente ou na primeira fila, com um sorriso sorriso um pouco entusiasmado demais e o constrangimento de quem ainda sabe muito pouco. Procura fazer amizade com todos porque sabe que é bom para a imagem dizer que conhece degustadores veteranos, quiçá renomados. Só tem um probleminha: basta um sorriso na direção dele, e ele vai grudar que nem mancha de shoyu na roupa branca. Conselho do Tio Andy: Não se afaste dele. Vai que alguns novatos acabam se revelando melhores degustadores que as putas velhas os mais veteranos, não é mesmo? Converse com ele, mas mantenha a distância com frases do tipo "eu gosto de beber vinho sem que ninguém interrompa a minha degustação". Para bom entendedor…

6. O cara que conhece um produtor. Você organizava um after dinner naquele wine bar dos Jardins, e todos compareciam, inclusive Beterrábio. Beterrábio era um sujeito que gostava de beber bem e não se preocupava muito com os rótulos: o que importava era ter uma boa taça na mão e estar na boa companhia dos amigos. Um belo dia, Beterrábio conheceu um produtor de vinhos no casamento da sua prima Escarólia. O produtor lhe contou a fascinante história da sua vinícola e Beterrábio se tornou vítima do rótulo. Daquele momento em diante, deixava de existir garrafa melhor no mundo, não existia outro vinho: mais ou menos como aquela vez em que outro amigo, Cenourino, estava virando vegetariano. Conselho do Tio Andy: Dê a Beterrábio um sonífero do tipo "derruba-leão", leve-o a uma casa abandonada nos cafundós do Judas. Deixe-o dois dias sem beber vinho e, depois, dê-lhe uma taça de um vinho que você escolherá, desde que não seja daquele amigo produtor. Beterrábio aprenderá a entender o que realmente importa nesta porca vida.


7. O cara que sabe que não sabe, mas finge que sabe. Talvez esta seja a pior categoria. O cabra sabe que sua cultura vínica é escassa, mas adota o sistema "pegue e leve (sem pagar)". Funciona assim: Goiábio encontra um especialista para fazer algumas perguntas sobre o que estão bebendo e, depois, sai dizendo o que ouviu, em outro contexto, diante de pessoas que entendem menos ainda de vinho. Pena que as informações conseguidas por Goiábio do especialista dizem respeito a um Tannat uruguaio, não a um Szürkebarát (Pinot Gris) húngaro. Conselho do Tio Andy: Se Goiábio for chegando, diga-lhe para não beber nada ainda. E se ele pedir alguma explicação sobre o tinto que você tem na sua taça, responda que se trata de um suco de beterraba. Ele sabe muito pouco para entender a diferença.

E você, amável leitor, é (ou foi) qual dos sete personagens do mundo do vinho que descrevi aqui?

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