segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Dez frases para parecer um especialista em vinhos, ou "revelando os truques dos mágicos"

...and, oh, there's just like the faintest
soupçon of like asparagus and just a flutter
of a, like a, nutty Edam cheese...
[O MINISTÉRIO DA ENOPICARETAGEM ADVERTE: Artigo politicamente incorreto. Sua leitura por pessoas extremamente sensíveis pode causar irritação e butthurt. Nesse caso, recomenda-se a suspensão da leitura neste momento.]



Eles estão no meio de nós. Eles estão ao nosso redor. Em muitos casos, somos nós. Sim, estou falando dos sedizentes especialistas em vinho. 



Quem são? O que fazem essas mitológicas figuras metade gente, metade saca-rolhas? Seu habitat natural são as degustações (de preferência, bocas-livres e, se não forem, o importante é estarem  credenciados e ostentar o crachá de "profissional"). São vistos com a taça em uma das mãos, girando-a no modo "centrífuga" (pouco importa que o gás daquele riquíssimo Champagne vá para as picas), e com um caderninho na outra para fazer as anotações, ou mais modernamente, empunhando seus intimoratos smartphones com as versões mais recentes do aplicativo Vivino ou outros apps menos cotados. E não param de fotografar tudo quanto seja fotografável, publicando cada foto quase em tempo real em seus Facebooks, Twitters e Instagrams. Se todos fossem como eles, o Zuckerberg teria que "fechar a lojinha" por pura falta de espaço para armazenar tanta foto de garrafa e taça (sim, rivalizam em quantidade com as fotos de gatos). Sei que muitos amáveis leitores já vestiram a carapuça deste intróito até os tornozelos. No entanto, há amáveis leitores que têm uma baita inveja dessas criaturas e querem ser como elas. Não percam o sono, caros! Tio Andy, sempre pensando no seu bem-estar social, apresenta aqui um decálogo prontinho para uso, prêt à porter, turnkey, para fazer bela figura em feiras de vinho, degustações e importadoras. Não importa se seu interlocutor é um sommelier "diplomado" nos cursinhos rápidos (mas caros) que pipocam por aí. Provavelmente eles serão iguais a você. Ou piores.

"Este ano vai ser bom. Vamos produzir 200 garrafas..."
1. "Eu só bebo vinhos de pequenos produtores". Coisa boa e meritória é o "garimpo", a paixão por valorizar os artesãos do terroir. É pena que, entre um garimpo e outro, a sua taça seja habitada por um vinho produzido numa "fábrica de vinhos" que despeja no mercado milhões de garrafas por ano e, se pudesse, aplicaria napalm para acabar com as ervas daninhas, os insetos e os parasitas dos vinhedos. Mas você não pode sequer dar a impressão de ser cúmplice da grande indústria do vinho. Conselho do tio Andy: Mentir, mentir sem pudor, inclusive para si mesmo.

2. "Este vinho fede? Tem sabor de vinagre? Então, é óbvio que se trata de um vinho natural!". Isso não é verdade, mas muita gente gosta de pensar assim para justificar os defeitos de um vinho: vinhos cujo trabalho de vinha respeita o terroir e têm o mínimo indispensável de intervenção humana não são sinônimos de vinhos com defeito. Um vinho mal-acabado é simplesmente mal-acabado e ponto final, e de forma alguma devemos justificar falhas crassas. Mas o "movimento naturalista", além de tantas pessoas que acreditam nele e trabalham a sério para ele, colocou sob sua proteção tantos vinhos "improvisados" que eles viraram modinha. Conselho do tio AndyFecha um olho e as duas narinas.


3. "Sinta este vinho, é vinho de terroir!". Só que você não tem idéia de onde ficam os vinhedos, de qual é o clima da região, nem da composição geológica do terreno. Você só diz isso porque causa boa impressão. Pior, se for blogueiro de certa fama, tudo quanto é vinho vai virar, da noite pro dia, "vinho de terroir", e todos vão começar a falar de vinhos de terroir, mesmo que não saibam sequer onde ficam os vinhedos dos quais o enólogo produz o vinho. Todos vão virar um verdadeiro contra-rótulo ambulante. Conselho do tio Andy: Enche o tanque, compra uma passagem, e vai viajar.

4. "Eu só tomo vinhos de fermentação espontânea e sem sulfitos. Os outros fazem mal e cheiram a banana". Esta pendenga é mais velha do que andar de quatro, principalmente em relação aos vinhos brancos. Quem diz isso não sabe escolher nem música para o próprio casamento, quanto menos as leveduras: fecha com as naturais e despreza todas as outras. Para essa gente, pouco importa se, para produzir um vinho de fermentação espontânea e sem sulfitos, sejam necessárias competência, uma atenção enorme e um cuidado obsessivo para chegar de verdade a um resultado que tenha caráter e exponha as características do vinhedo e do terroir. E nem passa pela cabeça do amável leitor, nem por um milésimo de segundo sequer, que é possível conseguir isso inclusive com leveduras escolhidas a dedo, não é mesmo? Hoje em dia, até as "fábricas de vinho" gigantes fazem vinhos de fermentação espontânea e não acrescentam sulfitos. Não teria isso uma razão de ser? Conselho do tio Andy: Integrarás o potássio de maneira criativa, e jurarás morte à banana!


5. "Sinta que acidez! Este vinho vai longe!" A acidez, junto com o sal, é o novo grito de guerra dos vinhos que agradam às pessoas "bacanas". Vinhos com bocas vibrantes e não fazem concessões aos paladares "doces" e padronizados. Pena que, pouco depois, os encontramos mortos e enterrados, enquanto os vinhos equilibrados, com tudo encaixadinho no lugar certo, passam dando beijinho no ombro. Conselho do tio AndyEsquecerás o passado e chuparás o limão! (Esta é para pensar).

6. "Este vinho é bom, mas o de 1997 era muito melhor!" Primeira regra do Clube do Vinho: torcer o nariz para o amigo ou o produtor que lhe ofereça uma garrafa, mesmo que seja rara e preciosa. Segunda regra do Clube do Vinho. SEMPRE torcer o nariz para o amigo ou produtor que lhe ofereça uma garrafa, mesmo que seja rara e preciosa. Deixe claro que você já bebeu coisa melhor e tem mais "litragem". O vinho que você tem na taça pode ter n pontos, mas nunca tantos quanto o seu antecessor. Mesmo que o produtor ainda não tenha colocado suas garrafas no mercado, você já as conhece e já as degustou. Conselho do tio AndyJamais estacionarás o DeLorean em fila dupla.

7. "Eu só bebo vinhos de vinhedos autóctones". Ah, vá! Cê jura? O produtor diante de você está servindo o precioso líquido, produzido rigorosamente com uvas de videiras de pé franco (ou seja, sem enxerto), provenientes de um vinhedo que correu o risco de desaparecer. A conclusão óbvia é esta: mas se ele estava prestes a desaparecer, algum motivo deve haver (rimadinho e tudo). Em muitos casos, a operação de resgate do vinhedo vale mesmo a pena, mas em outros os resultados são discutíveis a ponto de lamentar um pouco de Merlot ou Chardonnay (ou de batatas, como queira) nesses vinhedos. “Autóctone é bom, autóctone é legal, autóctone é seeeeensacional”: muitos, inclusive este que vos escreve, concordam com isso, mas para tudo tem limite. É só não ficar bitolado. Conselho do tio AndyAo inferno as batatas.


8. "Peixe eu acompanho com vinho tinto". OK, mas que tinto? No entanto, você vocifera aos oito ventos que tem condições de ousar, pouco importa se o tinto que você tem em mente é um Sagrantino di Montefalco, com taninos capazes de derrubar um elefante vivo, e se o peixe é um linguado à belle meunière. O seu barato é desacreditar a clássica "regra de três" branco:peixe/tinto:carne. Mostre sua audácia nas harmonizações e alegremente arranque caretas dos pobrezinhos dos seus amigos que sabem menos de vinho. Eles lhe "agradecerão" assim que conseguirem abrir a boca. Conselho do tio AndyJamais verterás Barolo no aquário daquele peixe vermelho.

Agora, amável leitor, as duas últimas frases têm o potencial de abrir as portas dos infernos contra este magro blogueiro, mas não tema: meu macacão ignífugo está a postos. São dois uppercuts no queixo de muito blogueiro famosinho pela aí.

"Eu sou o cara!"
9. "Sou um blogueiro, famoso: conheço Fulano, colaboro com Beltrano, escrevo para Sicrano". Esta bate forte. Basta chutar uma lixeira na rua que saem uns dez blogueiros de vinho, um a mais, um a menos, não muda porcaria nenhuma. Aliás, enoblogueiro bom já nasce morto. Nesta frase, preste atenção aos papéis, que são bem definidos: Fulano costuma ser um produtor ou um enólogo de larga fama; Beltrano pode ser um dono de restaurante ao qual você presta sua preciosa consultoria para montar a carta de vinhos; Sicrano é um jornalista famoso (seja de site, de revista especializada, de jornal ou de televisão). Mas muita atenção para não falar muito alto, principalmente em eventos, feirinhas e feirões de vinhos: alguém que esteja perto pode ser um dos três personagens acima e desmenti-lo sem pejos diante da(s) pessoa(s) que lhe estão escutando de queixo caído. Seja discreto, quase silencioso e exagerado a não mais poder. Conselho do tio AndyNão darás bom-dia apenas a cavalo.


"Conta pra ele quem sou eu na ExpoVinis..."
10. "Fui o primeiro a descobrir essa vinícola. Ela deve a mim seu sucesso/seus prêmios". Seja arrogante, diga sem medo que você tem nome no mundo do vinho. Fale da visibilidade da festa que você deu, converse também com o próprio produtor, que ficará fascinado com essa oportunidade de ouro. Vanglorie-se da descoberta e do prêmio do produtor Fulano que, sem você, seria hoje um joão-ninguém. Conselho do tio AndyDizer "fui eu que inventei a Pinot Noir" pode ser um pouquinho exagerado.

Bem, Tio Andy deixa ao amável leitor um último conselho. Não é uma frase de efeito, mas está valendo: Não tem problema querer oxigenar o vinho na boca, mas evita aquele sonzinho de gargarejo da pia meio entupida. Sê mais discreto, se faz favor.

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