sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O que eu devia saber quando entrei no mundo do vinho

Salve, leitorada amiga de mon petit coeur!

Começo minha volta ao blog com uma pequena digressão (quem quiser pulá-la, be my guest).

Lá se vai quase meio ano desde a minha última publicação, mas sou assim mesmo, "comético". Ser à vez tradutor e blogueiro é uma tarefa terrível: quem passa o dia escrevendo não quer chegar ao fim da jornada e escrever longos textos (como este será) duma enfiada só. No entanto, isso não quer dizer que as idéias não sejam anotadas num arquivo à parte para serem compiladas quando a minha agenda pessoal/profissional insana fica mais benevolente com este pobre chela das letras.

Como não estou competindo pelo posto de "top blogs" em lugar nenhum, não ganho um puto centavo com o que escrevo (nem pretendo) e não me sinto pressionado a escrever qualquer notinha sobre cada vinho que "passo na cara" (é, isso foi vulgar), sabendo que uns setecentos e noventa e dois outros blogueiros ao redor do mundo já podem ter escrito com mais ou menos maestria sobre eles (tem blogueiro da Moldávia que avalia um Riesling da mesma forma que um blogueiro do Vale do Napa, e os dois não se conhecem). Nada contra quem o faz, só que isso deixou de ser a minha praia há tempos. Guardo minhas notas vínicas a sete chaves. Quem me conhece sabe que, aqui, o papo é mais didático, mais pensado, para consumo acompanhado de um bom vinho de meditação. No bubbles, please.

Fim da digressão ("grazadeus").

É fácil beber bons vinhos, mas o pulo do gato está em saber como encontrá-los. Naturalmente, quando se conhece bastante sobre vinho, é possível encontrar excelentes vinhos para comprar sem precisar queimar o miolo (nem gastar os tubos, por falar nisso). É uma habilidade das mais deliciosas que pode ser adquirida com um pouquinho de dedicação.

Em finais do ano passado, comecei a pensar em como os especialistas (quase) sempre conseguem escolher bons vinhos, e se esses especialistas podiam dar algumas dicas a um enoleigo para que ele refine sua capacidade de escolha. É claro que essas dicas só levam o neófito até um certo ponto, mas pelo menos o colocam no rumo certo.


SOBRE A HORA DE ESCOLHER UM VINHO NA IMPORTADORA (OU NO SUPERMERCADO)

wine ratings explained

a) Diga “frutado” ou “herbáceo” para indicar sua preferência
Em vez de "brigar" com as palavras para tentar descrever os vinhos de que você gosta, comece com estas frases simples:

Eu gosto de vinhos herbáceos; ou
Eu gosto de vinhos frutados.

Os vinhos herbáceos têm muito poucos aromas de fruta, sendo mais minerais e sem doçura, Os vinhos frutados são... mais frutados! (Avá, cê jura?). Curiosamente, as observações aleatórias do DataAndré mostram que a maioria dos recém-iniciados no mundo do vinho tende a privilegiar o perfil frutado.

b) Vinho frutado vem de climas quentes; vinho herbáceo vem de climas frios
O meu mundo do vinho caiu quando percebi que minha proverbial predileção pelo Syrah (ou Shiraz) significava que eu gostava de vinhos frutados de regiões de climas quentes. De repente, saquei meu atlas geográfico e comecei a fazer conjecturas na hora de comprar vinhos. Isso levou minhas "explorações" aos grandes tintos da África do Sul, da Argentina e da Espanha.

c) Pare de comprar vinhos no supermercado.
A grande "malandragem" do ato de comprar vinhos é a seguinte: algumas importadoras se preocupam com cada vinho que têm em estoque, e algumas não estão nem aí. Mas a questão aqui é a do supermercado (ou do mercadinho): sim, é possível encontrar ótimos vinhos num supermercado, mas a maioria dos supermercados é abastecida por grandes distribuidoras, cujo maior interesse é ganhar dinheiro, pouco se lixando em agradar o paladar do cliente (há honrosas exceções, e escreverei sobre elas em outro artigo). Um supermercado que se preocupa com a seleção de vinhos terá um parâmetro de qualidade mais elevado, e será mais provável encontrar coisas que realmente valham a pena.

d) Compre vinhos mais baratos numa importadora séria
Entre numa importadora (seja num site ou indo à loja) que tenha boas avaliações e comece pelos vinhos de menor preço. Vinhos mais baratos, mas escolhidos com cuidado, podem ensinar muita coisa sobre as regiões e os vinhos que devem fazer parte das suas buscas. Além disso, você correrá menos riscos se não gostar de alguma coisa (sempre se pode fazer uma sangría). É importante que a importadora não seja especializada em apenas uma região (por exemplo, somente França, somente Itália ou somente Espanha). Não é muito bom adquirir uma visão estreita sobre regiões durante a sua fase de "explorações".

e) Use as avaliações e notas cum grano salis
Quando se trata de avaliações e notas, se o vinho for de uma uva e uma região com que você estiver familiarizado, elas podem ser úteis para encontrar novos vinhos. Se o território for desconhecido, elas não valerão tanto assim nem garantirão que você vai gostar de um determinado vinho.

f) A grana está curta? Procure variedades e regiões alternativas
Quando você estiver "vendendo o almoço para comprar a janta", essa será uma oportunidade de ouro para inovar e inventar. Você deve procurar uvas e estilos alternativos e regiões subestimadas e subvalorizadas. Por exemplo, quem ama um vinho "de presença" como um Cabernet Sauvignon provavelmente se apaixonará pelo Touriga Nacional (vinho português) ou por um Petite Sirah (da Califórnia... não, péra. Vinho da Califórnia é caro pra baralho).


SOBRE BEBER VINHO EM PÚBLICO

a) Segure a taça pela base da haste.
Sabe aquela história do "aperto de mão secreto" dos maçons para que um irmão identifique o outro? O mundo do vinho também seu código de identificação de conhecedores: é a maneira como a pessoa segura a taça de vinho. OK, você pode segurar a taça como Deus te-lo inspire, à moda antiga, mas, numa sala cheia de especialistas, é assim que se faz:
  • Se a taça tiver haste, segure-a perto da base da haste.
  • Se a taça não tiver haste, segure-a perto do fundo.

b) Gire [quase] tudo
Pode perceber: enófilos de carteirinha têm uma espécie de tique nervoso (mas justificável): girar a taça. Girar um vinho na taça é útil antes de avaliar um vinho olfativamente para liberar os aromas e para aerá-lo. É comum ver connoisseurs girar sem parar a taça que têm na mão durante uma conversa informal. Simplesmente não dá pra evitar. É um hábito. Experimente, você vai adorar. Entre para o clubinho.

c) Preste atenção enquanto bebe
O segredinho que fará com que você se destaque dos seus colegas nessa história de vinho é bem simples e divertido. Parece óbvio, mas você vai ficar de queixo caído quando souber quantas pessoas simplesmente bebem sem pensar. Basta prestar atenção sempre que degustar uma nova taça de vinho. Tente ser sistemático e usar a mesma rotina. Por exemplo, eu adquiri esse hábito tentando identificar três aromas de fruta e três aromas "diversos" (mineral, herbáceo, etc.). Não é necessário prestar atenção o tempo todo, só quando começar a taça e, talvez, de novo antes de terminá-la.


COMO INTERAGIR COM ENOCHATOS

a) Sorria, concorde e afaste-se de fininho.

Não existe área de conhecimento no mundo (seja literatura, arte, teatro ou até mesmo "puxação de ferro na academia") que não seja apinhada de pedantes. Os pedantes usam seu conhecimento ou sua experiência sobre um assunto para exercer poder sobre as pessoas, e normalmente essas pessoas acabam ficando constrangidas ou se sentindo deslocadas. Infelizmente, o vinho é um terreno fértil para os pedantes, que, nessa área, são conhecidos como enochatos. Há várias maneiras de lidar com um enochato, mas a melhor delas é nem chegar perto dele. Caso isso seja inevitável, sorria, concorde com tudo e se afaste de fininho

Aliás, só essa história de enochatos rende um ou mais artigos completos. Durante este carnaval, vou escrever um guiazinho prático (e curto) sobre o assunto.

À tout à l'heure!